quarta-feira, 16 agosto, 2017 - 12:17
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Treinadora recrutou nas ruas do Zimbábue uma equipe paralímpica de remo

Treinadora recrutou nas ruas do Zimbábue uma equipe paralímpica de remo

Cinco meses antes de Jogos no Rio, integrantes mal conheciam esporte e alguns tinham medo de água.

Dos cerca de 12,5 milhões de habitantes do Zimbábue, cinco fizeram parte da delegação do país para os Jogos Paraolímpicos no Rio de Janeiro. E desses cinco, quatro não faziam ideia de que pudessem um dia estar na maior competição mundial do esporte para pessoas com deficiência.

Aliás, há cinco meses, eles não esperavam estar em qualquer competição esportiva – uma, inclusive, era “sedentária” até então.

A vida deles começou a mudar graças a uma treinadora que, em março deste ano, aceitou o desafio de montar uma equipe paraolímpica de remo em um país onde a deficiência ainda é algo a ser “escondido”.

Rachel Davis começou literalmente uma “caça” a pessoas com deficiência no Zimbábue – pelas ruas, pela internet, pelas redes sociais.

A maioria dos que apareceram para os testes classificatórios mal sabia como o remo, um esporte considerado “elitista”, funcionava. Boa parte deles sequer havia entrado em uma piscina ou uma lagoa antes – até porque o Zimbábue é um país conhecido por águas infestadas de crocodilos.

Treinadora recrutou nas ruas do Zimbábue uma equipe paralímpica de remo

Rachel teve um mês para fazê-los perder o medo da água – e outro para ensiná-los o beabá do remo.

A maioria deles não entendia o esporte. E eles ficavam tão felizes quando eu os levava para a piscina… Eles aproveitaram a oportunidade para ser parte de algo, mas não estavam entendendo que a gente viria para cá. Nem a gente acreditava que iríamos chegar tão longe”, disse a técnica Rachel à BBC Brasil.

Rachel Davies trabalha com o remo há pelo menos 20 anos. Ela é originalmente do Canadá, mas desde 1996 mora no Zimbábue, onde já coordenou a equipe profissional e as equipes de base, mas nunca havia trabalhado com para-remo.

O desafio já começou com ela tendo que aprender a separar e “classificar” os atletas de acordo com suas deficiências. “Eu não fazia ideia de como isso funcionava. Tive poucos meses para descobrir, fui seguindo um manual”, conta.

Correndo contra o relógio, contra a falta de estrutura e a ausência de verbas, Rachel Davies montou uma equipe de iniciantes e, em três meses, eles já estavam fazendo a primeira corrida de suas vidas, na Itália. Quatro meses depois, a equipe estava no Rio de Janeiro competindo ao lado dos melhores atletas do mundo.

Em todas as corridas da categoria Quatro com timoneiro misto, o Zimbábue ficou em último, chegando quase meio minuto depois de todos os seus adversários. Ainda assim, Previous Wiri, Takudzwa Gwariro, Margret Bangajena e Michelle Garnett (além da timoneira Jessica Davis, filha da técnica) foram muito aplaudidos na lagoa Rodrigo de Freitas e ouviram o nome do país ser ecoado nas arquibancadas.

Treinadora recrutou nas ruas do Zimbábue, em dois meses, uma equipe paralímpica de remo

Recrutamento para equipe de remo

“Oi, desculpa, mas não pude deixar de notar que você só tem uma perna. Podemos conversar?” Foi mais ou menos assim que ela interpelava “atletas em potencial” nas ruas do país africano para formar a improvável equipe de para-remo. Ela fez de tudo, até mesmo post no Facebook, para encontrar pessoas com deficiência que estivessem dispostas a dar uma chance ao esporte.

Assim, Rachel marcou um dia para encontrar todos os que aceitaram o convite na escola particular onde dá aula na capital, Harare. Na data escolhida, houve quem andasse 20 km sobre uma cadeira de rodas para chegar até lá; houve quem aparecesse sem qualquer documento (porque nunca havia tido um), apenas com alguma esperança de que aquela oportunidade seria única na vida; houve até quem aparecesse com uma touca de banho, para se proteger da água na hora de remar.

“As histórias que a gente viu nesse recrutamento são incríveis. Pessoas com deficiência são escondidas no Zimbábue. Eles estavam apenas felizes que alguém queria fazer algo com eles, que alguém precisava deles. A gente sempre ouve que você precisa ter fé, que você precisa acreditar, e esse projeto todo foi baseado nisso.”

Ela estava só no começo. Depois vieram as primeiras aulas de natação para quem não sabia nadar, os primeiros ensinamentos no barco e, em menos de um mês, eles estavam no aeroporto indo para a Itália.

“Uma delas, que sequer tinha documento, chorou ao pegar seu passaporte. A família pulou de alegria, com orgulho da filha que era a primeira entre eles a fazer uma viagem internacional. A gente não tinha ideia do que estava fazendo, mas essas pequenas coisas valiam a pena”, afirmou a treinadora.

“No aeroporto, eu estava indo na frente com minha filha Jéssica e, de repente, nós percebemos que eles não estavam mais nos seguindo. Olhamos para cima, e eles estavam ali, perplexos. ‘Uma escada que anda’, eles disseram. A maioria ali nunca havia visto uma escada rolante.”

Treinadora recrutou nas ruas do Zimbábue, em dois meses, uma equipe paralímpica de remo

Rio

Quando finalmente a oportunidade de viajar ao Rio como convidado para disputar a Paraolimpíada se tornou mais concreta, Rachel Davis e seu time recém-formado tiveram outro problema: uma das atletas teve convulsão na viagem para a Itália e a treinadora precisou abrir mão dela para buscar uma substituta.

A mais nova integrante do grupo, Michelle Garnett, foi encontrada da forma mais inusitada possível: a filha de um dos melhores amigos de Rachel. Michelle tinha paralisia do lado esquerdo do corpo e, apesar de nunca ter praticado nenhum esporte, acabou aceitando o desafio de aprender a remar.

Assim, com a equipe completa – ainda que inexperiente – e com o convite para a Paraolimpíada garantido, Rachel precisou viabilizar a outra parte da viagem: a financeira.

“A maior lição que aprendi nessa experiência é que as pessoas são boas. Você só precisa pedir, tem que ser humilde o suficiente para pedir.” Os italianos doaram o barco, os americanos doaram os remos, os canadenses doaram os uniformes e, na última hora, o governo do Zimbábue confirmou as passagens aéreas. Era real, eles estavam a caminho do Rio.

Para Takudzwa Gwariro, que fez parte da equipe, estar no Rio nos Jogos Paraolímpicos após dois meses de “preparação” é a prova de que “quando uma oportunidade aparece, é preciso agarrá-la com as duas mãos”. E agora ele só espera que as coisas sejam um pouco diferentes na volta para casa. “A gente teve bastante exposição de mídia, as pessoas estavam acompanhando nossa equipe aqui. Então espero que isso ajuda a conscientizá-las sobre as pessoas com deficiência.”

O maior desafio para Rachel Davis e o recém-formado time de para-remo, no entanto, virá agora. “Por um momento, fico feliz por ver que conseguimos chegar até aqui, mas por outro lado, também fico desesperada. Agora vamos pensar em Tóquio? O que vamos fazer até lá? Mas aí eu penso que, se a gente conseguiu isso em cinco meses, o que podemos fazer em quatro anos?”.

Ela termina de maneira esperançosa. “Vamos fazer da maneira correta e vamos mostrar que a África pode estar em qualquer lugar. A África não é um país sem esperança que está preso em pobreza e corrupção. Estamos mostrando que o Zimbábue pode chegar onde quiser.”

Fonte: BBC Brasil/Renata Mendonça | Fotos: Arquivos pessoal 
http://www.bbc.com/portuguese/brasil-37359166

Sobre Luciano Abe

Jornalista, fotógrafo, videorrepórter, documentarista, cineasta, mestrando e blogueiro com diplomas e certificados de cursos e especializações nessas áreas pela PUC-SP, Academia Internacional de Cinema (AIC) e Senac-SP. Foi professor no Senac-SP e na editoria de treinamento da Folha de S.Paulo. Jornalista profissional diplomado (Mtb: 0068126/SP)